Transformar um “não lugar” em lugar através do urbanismo tático

Organizações se juntam para transformar um “refúgio de pedestres” e pedaço de praça em cruzamento icônico em um lugar mais agradável e com significado para as pessoas que passam por ali

Por Leticia Sabino

Por quantos lugares só de passagem e que parecem ser o que “sobrou” da rua você passa a pé na cidade? A cidade foi majoritariamente planejada para os carros e fluxo de veículos sobre pneus. Isso significou abrir vias expressas e passagens mais rápidas, construir viadutos e cortar potenciais praças.

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Nó viário no cruzamento da Paulista com a Consolação

No encontro da Avenida Paulista com a Consolação não foi diferente, tanto que é até difícil acompanhar o nó viário que se faz por ali. Neste espaço, na avenida mais icônica de São Paulo, entre as praças do Ciclista e dos Arcos, existe um refúgio de pedestres , "não lugar", pelo qual passam mais de 20 mil pessoas a pé por dia. Foi ali, e no “pedaço” da praça José Molina, que propusemos melhorar através do urbanismo tático junto com o movimento Boa Praça e voluntários da empresa WeWork.

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Vista de outro ângulo para o nó ao final da avenida Paulista

Não-lugar
O antropólogo Marc Augé criou o conceito de “não-lugar” para se referir aos espaços de passagem incapaz de dar forma a qualquer identidade na cidade. Alguns destes espaços são criados justamente pela infraestrutura viária, como baixios de viadutos, quando não utilizados, chamados também de espaços residuais, e como o espaço desta intervenção.

O espaço

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Locais escolhidos para a ação de urbanismo tático

As ações de melhoria se deram entre dois espaços que estão interconectados por uma faixa de pedestres. Eles podem ser acessados em 40 passos entre um e o outro, atravessando a Consolação. Os locais são passagem para acessar estações de transportes de massa: as estações de Metrô Paulista e Consolação e o ponto de ônibus do corredor Consolação-Rebouças, importante conexão entre o Centro e as zonas Oeste e Sul. Além disso, se encontram ali as ciclovias da Paulista e da Consolação, estruturantes para os deslocamentos ativos da região central da cidade. Uma vantagem deste ponto é que como está no espigão da Paulista (ou morro do Caaguaçu) para todos os lados que se caminha a inclinação da rua é de descida. Para fazer a intervenção, observamos não só a localização e a função da área para a cidade, mas também olhamos e diagnosticamos como as pessoas interagem com esse espaço.

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Contagem de pessoas que passam ali

No refúgio de pedestres, realizamos uma contagem de fluxo e descobrimos que mais de 20 mil pessoas passam por ali diariamente — em média 16 pessoas por minuto. Destas pessoas, 33% atravessam a faixa que acessa a Paulista sentido centro, 32% atravessam a faixa da consolação, 18% atravessam para a Praça do Ciclista e 17% na faixa para a Paulista lado bairro.

Diagnosticamos que os mobiliários urbanos dessa área não servem para a maioria das pessoas. Tem um ponto de táxi, cujo banco se encontra travado, um relógio digital e 13 postes de sinalização ou serviço: 1 com nome das ruas, 1 de iluminação, 1 de câmera de segurança, 1 para radares, 3 de semáforo, 5 de placas de sinalização para veículos motorizados e apenas 1 de sinalização para pedestres.

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Sinalização de pedestres do poder público

A sinalização de pedestres, no entanto, tem diversos problemas. Tanto no seu modelo, porque a altura da placa não está na escala das pessoas, quanto de informação. De um lado, por exemplo, seu texto apenas mencionava o Cemitério da Consolação e mais nenhum equipamento. Além disso, a sinalização sequer informa as distâncias e tempo de caminhada para chegar aos locais.

No pedaço da Praça José Molina tivemos a surpresa de identificar que naquele pequeno espaço já havia 4 bancos para sentar — sem a hostilidade de dividir o espaço de sentar individualmente - além de canteiro de plantas com 9 árvores e o monumento com uma lâmpada em homenagem à Thomas Edson. Porém tanto o caráter de passagem, quanto o ruído presente, entre outras razões, dificultam com que a praça seja um local de permanência.

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Bancos da praça José Molina

Por fim, diagnosticou-se, que ambos espaços careciam de informação para quem passa por ali, seja para se localizar como para saber a proximidade de alguns equipamentos de referência da cidade. Ainda, estes lugares induzem as pessoas a passar rápido e não olhar para o lado ou ter uma atitude mais leve e amigável, pois a falta de conforto, a velocidade e o ruído dos automóveis levam as pessoas a querer sair de lá o mais rápido possível.

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Mensagem produzida pela ação, em frente ao prédio da WeWork

Olhar para além do prédio
A ação foi um pedido da WeWork para celebrar o Dia da Terra com seus voluntários olhando para além do espaço de um dos seus prédios. A vontade de promover conexões já está no DNA da organização, que queria expandir para a rua um pouco dessa missão que já promovem internamente. Essa é uma referência muito positiva para outras instituições privadas, que poderiam se ocupar em pensar como as pessoas chegam, saem ou simplesmente passam por seus estabelecimentos e, a partir disso, pensar em como podem melhorar esta experiência.

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Placas instaladas na ação indicando equipamentos e tempo de caminhada

A transformação
Depois de aprender sobre o espaço, as pessoas que passam e alguns de seus anseios, foi o momento de planejar as ações e melhorias. Definiu-se que era urgente melhorar a informação para as pessoas que passam. Para isso, fizemos sinalizações de wayfinding, indicando locais de interesse no entorno em quatro categorias: estações de metrô, museus e instituições culturais, parques e praças, e ruas. Cada categoria tem uma cor correspondente e o tempo médio de caminhada é apresentado (considerando a velocidade de 4,5km/h).

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Detalhes dos postes idealizados pelo Meiofio

Além disso, era preciso evidenciar o excesso de postes e fazer com que eles servissem para as pessoas. Então convidamos o Coletivo Meiofio a fazer instalações artísticas neles.

Também decidimos usar o piso como espaço para promover uma sensação melhor a quem caminha e auxiliar nos sentidos e direções. Decidimos fazê-lo através de pintura, que além de trazer cor, conecta-se com a linguagem da sinalização e auxilia na orientação dos caminhos.

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Pintura no piso vista de cima — recebida por whatsapp
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Bancos com encosto e arte

Já em relação aos bancos para sentar, construímos e instalamos os encostos para promover mais conforto. Para isso, contamos com a preciosa ajuda do Raimundo do Movimento Boa Praça, que já fez muitas melhorias em bancos na cidade. E além de encosto obviamente houve arte e cores.

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Mensagens para interagir e desacelerar

E por fim, foram feitas sinalizações lúdicas para propor a desaceleração e promover a interação e a contemplação da cidade aproveitando-se de alguns números sobre o caminhar neste espaço, como tempo de espera para travessar e passos para chegar ao outro lado.

A ação contou com cerca de 20 voluntários da WeWork, que em 4 horas colocaram a mão na massa para fazer tudo isso acontecer, com muita diversão envolvida!

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As muitas mãos que transformaram os lugares
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Bordado nas grades "Vamos a Pé?" do Meiofio e apresentação musical do Théo com Sétima

A intervenção é efêmera, mas as mensagens que deixam e, principalmente, o processo de construção, são permanentes. Agora a intenção é dialogar com o poder público para que estas melhorias possam durar mais e inspirem-no a garantir que a construção da cidade seja sempre participativa. Vamos a pé?

Written by

ONG que tem como fim melhorar a experiência de caminhar nas cidades.

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