Sentindo nos Pés com Soninha Francine

SampaPé continua na missão de levar tomadoras e tomadores de decisão a caminhar para refletir sobre as condições desse meio de transporte em São Paulo — essa foi a vez da vereadora e ex-subprefeita da Lapa

Confira aqui o vídeo completo do programa Sentindo nos Pés com Soninha Francine
Image for post
O mapa do percurso que fizemos a pé

Por onde caminhamos
O Sentindo nos Pés é um projeto que convida autoridades a viverem o deslocamento a pé com um olhar mais crítico. Para essa edição, gravada com a vereadora Soninha Francine, optamos por fazer um parte do trajeto de sua casa à Câmara de Vereadores. Saímos da sua residência, na Vila Pompeia, e fomos em direção ao começo do Minhocão, próximo à avenida Pacaembu. A vereadora é adepta do transporte público, então o caminho não era nenhuma surpresa para ela — tanto que nos guiou na maior parte do trajeto. Soninha também já foi prefeita regional da Lapa, na gestão Kassab, mais um motivo para a participante ter muita identificação com a área percorrida.

Se engana quem pensa que o Sentindo nos Pés é um simples passeio — antes de iniciar a caminhada, incumbimos a participante de registrar o que identifica de positivo e negativo para a mobilidade a pé nas ruas.

Image for post
Tá ruim, mas vai ficar bom

Calçadas cilada
Logo no começo da caminhada demos de cara com uma calçada sendo reformada, mas sem nenhuma sinalização ou demarcação de desvio provisório. Dali pra frente, encontramos muitas calçadas “cilada” pelo caminho, e de todos os tipos: calçadas “engolidas” nas esquinas, dando ainda mais espaço aos carros, guias rebaixadas quebradas ou inexistentes, degraus em calçadas planas e buracos de todos os tipos.

Image for post
O farol que tira a prioridade às pessoas

Semáforo para pedestres ajuda?
Para cruzar a avenida Pompeia, precisamos esperar um tempo significativo. A vereadora então chamou a atenção para uma mudança negativa que aconteceu no local: quando havia semáforo apenas para carros, os veículos eram obrigados a respeitar a preferência dos pedestres na travessia antes de fazer a conversão. Com o semáforo para pedestres, somos obrigados a esperar mais tempo para cruzar uma avenida como essa, com conversões à direita e à esquerda, ainda que pouquíssimos carros façam essas manobras.

Image for post
Muros coloridos colorem o caminho

Rota entre escolas
Passamos por duas escolas públicas, uma estadual e outra municipal, na mesma rua. Apesar de haver uma ciclovia ligando o trajeto entre ambas, o caminho a pé é bastante desconectado e acessível. Por isso é importante pensarmos a mobilidade a pé de forma contínua — para, assim, estimular os deslocamentos a pé entre pontos de interesse público e acesso aos transportes públicos na proximidade.

Image for post
O caminho oficial versus a linha de desejo

No meio do caminho tinha uma rotatória
Saindo do bairro da Pompeia, já próximas ao Allianz Arena, encontramos uma sinalização que mostra a falta total de prioridade ao pedestre na cidade. Para chegar à praça Marrey Júnior, que na verdade é uma rotatória na avenida Sumaré, havia uma intervenção interessante de extensão da travessia. No entanto, em seguida descobrimos que chegar de um lado a outro da avenida Sumaré a pé é tarefa para maratonistas! O caminho traçado pelas faixas de pedestres nos obrigaria a andar muito mais do que o traçado mais intuitivo caminhando (vide imagem acima). “Eles não querem que a gente ande em linha reta”, reclamou a vereadora.

Image for post
Bebedouros fazem toda a diferença no caminho

No meio do caminho também tinha um parque (ufa!)
Por sugestão da vereadora, adicionamos ao nosso trajeto um atalho pelo parque da Água Branca — um desvio que só se pode fazer a pé. Ao lado de um dos terminais de transporte público mais agitados de São Paulo, tem um oásis com bancos, bebedouro, banheiro público e contato com animais. Lá refletimos como seria essencial ter acesso a tudo isso nas ruas. Lá também gravamos uma live para o Facebook do SampaPé!

Image for post
Auxiliamos Mauro, um cidadão, a atravessar uma avenida que deveria contar com semáforos sonoros

Desrespeito com pessoas com deficiência visual
Fomos surpreendidas com um piso podotátil que acaba no muro, na estreita calçada em frente à entrada do Parque da Água Branca. Ali também encontramos, por coincidência, Mauro, um cidadão com deficiência visual que tentava caminhar até o ponto de ônibus da Avenida Matarazzo depois de sair de uma formação profissional em uma Unidade de Reabilitação para Deficientes Visuais, na rua ao lado. Apesar de uma placa indicar aos carros que ali é uma “travessia para cegos”, o semáforo sonoro não funcionava, tirando dele a possibilidade de atravessar a rua com autonomia. Pela conversa que tivemos com Mauro, essa não é uma situação incomum na cidade.

Image for post
A situação das únicas placas para pedestres que encontramos

Cadê a informação?
Mauro direcionava-se ao ponto de ônibus, onde nos acendeu uma luz para uma necessidade latente: como ele poderia identificar que ônibus está vindo e qual a melhor opção para chegar a qual lugar? Ele revelou que sempre pede ajuda a outras pessoas que estão no local. Mas a realidade é que essa informação não está suficientemente disponível nem mesmo para as pessoas sem deficiência visual, o que é uma dificuldade para todas as pessoas que precisam se deslocar a pé e por transporte público. Soninha chamou a atenção para o fato de que a maioria das indicações sobre caminhos na cidade serem direcionadas a pessoas em veículos, que quase nunca fazem sentido para as necessidades de quem se desloca a pé.

Mãozinha
A vereadora gostava de sinalizar com as mãos para os motoristas sempre que ia atravessar uma faixa de pedestres sem semáforo. Segundo ela, esse é um gesto simples que pode despertar a atenção dos motoristas. Infelizmente os condutores de automóveis quase nunca são fiscalizados por não respeitarem a preferência de travessia dos pedestres.

Image for post

Portões que abrem para fora
Soninha chamou a atenção para um portão de garagem que abre para fora, que pode ser um risco aos pedestres. Esse tipo de dispositivo foi proibido pela lei 16.809, sancionada em janeiro, segundo a qual os proprietários de imóveis que não fizerem a modificação poderão ser multados pela Prefeitura.

Image for post

Passarela, para quê te quero?
Encontramos uma passarela no final da avenida Francisco Matarazzo em um trecho que conforme apontado pela própria vereadora, poderia, tranquilamente, ser uma travessia com faixa de pedestres elevada. A vereadora falou sobre o quanto passarelas como aquelas aumentam o trajeto que o pedestre deve caminhar em relação a travessias no mesmo nível da rua. Essa estrutura foi colocada naquele espaço possivelmente para não forçar os carros a pararem na entrada do Minhocão — o que não fazia sentido, visto que já se trata de um trecho com muito congestionamento.

O mais curioso é que do outro lado da avenida se encontrava uma igreja — e por isso víamos muitas pessoas idosas sendo obrigadas a usar a passarela para ir ou voltar de lá. Os mais jovens — e ousados — acabavam atravessando em meio aos carros e pulando os gradis para não terem que dar tantas voltas nas rampas da passarela.

Image for post

Pedestre sobrando nas laterais
Antes de chegar ao nosso destino final — o ponto de ônibus sobre a avenida Pacaembu, no início do Minhocão, tivemos que encarar mais uma calçada quase inexistente, que joga os pedestres para os lados. Uma boa metáfora sobre como a cidade (não) foi planejada. Nos despedimos de Soninha, que toma seu ônibus rumo à Câmara dos Vereadores.

Image for post
Ana Carolina Nunes, Soninha Francine e Leticia Sabino (e Rachel Schein atrás da câmera!)

Muito obrigada por nos acompanhar e até a próxima edição!

Mais:

Veja como foi o Sentindo nos Pés com a Aline Cardoso, Secretaria de Trabalho e Empreendedorismo de São Paulo e com a Adriana Campelo, Diretora de Resiliência de Salvador.

Veja a primeira temporada do Sentindo nos Pés.

Veja o vídeo explicativo sobre o projeto.

Written by

ONG que tem como fim melhorar a experiência de caminhar nas cidades.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store