Sentindo nos Pés com José Armênio

Caminhamos com o presidente da SPUrbanismo, empresa de planejamento urbano da Prefeitura de São Paulo

Confira o episódio completo
Image for post
José Armênio desloca um anúncio que cobria a placa de inauguração dos calçadões do centro

José Armênio é um caminhante inveterado. Morador do centro, anda todos os dias até seu trabalho, no edifício Martinelli, onde está instalada a SPUrbanismo. Em mais uma edição do Sentindo nos Pés, “batemos perna” pelos principais calçadões do centro de São Paulo e conhecemos um pouco mais sobre os planos da Prefeitura para a requalificação daquela área. Também descobrimos particularidades que afetam as calçadas de toda a cidade — e que são um desafio para melhorar a experiência de caminhar por aqui.

Image for post
Mapa do trajeto percorrido

O trajeto
Escolhemos andar pelo centro da cidade, priorizando os calçadões e passando por galerias, ruas quase compartilhadas e praças. O ponto de partida e chegada foi o edifício Martinelli, localizado na rua São Bento, no “centro velho” de São Paulo.

Image for post
Um dos inúmeros bueiros que viram obstáculos nas calçadas

Quanto mais serviços, mais tampas
Logo no começo, José Armênio mostrou como as calçadas da região concentram tampas de bueiros e galerias por onde passam diversos serviços que usam o subterrâneo da cidade, como telefonia, gás e internet. São tantos que às vezes nem o poder público sabe precisar quantas galerias e cabos estão debaixo de cada rua e calçada. Esse é um desafio gigantesco para todo o município, uma vez que quanto mais empresas passando seus canos e cabos pelo subterrâneo, mais “quebra-quebra” e irregularidades na calçada.

Image for post
José Armênio usa a moldura verde para destacar o Viaduto do Chá a Ana Carolina

Exemplo raro
O convidado aponta como o Viaduto do Chá é um bom exemplo e uma exceção — a dimensão da calçada é adequada para a quantidade de pedestres que passam por ali, ao mesmo tempo que a ausência de tampas de bueiros e galerias permite que o seu caminho não tenha obstáculos que a manutenção do mosaico português utilizada neste trecho esteja boa.

Image for post
Flagra de um espaço hostil

Dispositivos anti-humanos
O centro é um espaço cheio de disputas e contradições, e alguns elementos de “arquitetura hostil” encontrados por lá explicita os conflitos da cidade. Em nossa andança, encontramos uma loja que, além de inacessível a cadeiras de rodas, conta com espetos nos seus degraus para impedir o uso para descanso. José Armênio é taxativo: “Não aprovamos isso porque nós somos seres humanos e gostamos de pessoas”. Já na praça Dom José Gaspar, um espaço muito utilizado para o encontro de pessoas na região da República, nos deparamos com bancos com divisórias, que impedem que pessoas se deitem. O presidente da SPUrbanismo, ao reparar nesse dispositivo, brinca com a falta de lógica de um banco que separa pessoas: “fica cada bunda no seu quadrado”.

Galerias
Passamos, durante a gravação, na frente de diversas galerias, como a R. Monteiro e caminhamos pela área do Copan. Espaços privados mas que aumentam a permeabilidade da cidade, dando continuidade aos caminhos a pé — são prédios com livre circulação das pessoas de um lado a outro da rua.

Image for post
Placa no chão do calçadão do centro novo, na República

Calçadões da cidade
No meio do calçadão da rua Barão de Itapetininga, na República, nos deparamos com a placa de mármore no chão que registra a inauguração daquela área exclusiva para pedestres, em 1976. Nela está gravada a frase “uma cidade menos dura, menos fria, menos materialista”. Também revela um dado levantado pela SPUrbanismo: apenas pelos calçadões do centro passam 600.000 pessoas por dia (o que equivale a aproximadamente uma Cuiabá ou duas Islândias). Armênio aponta ainda a intenção de implantar, no final dos calçadões, faixas de pedestre elevadas, de modo a estender a calçada na altura da rua e manter a conectividade entre espaços exclusivos para pedestres.

A SPUrbanismo está hoje à frente do projeto da Prefeitura de requalificar os calçadões do centro da cidade, o que deve se iniciar com o centro velho. A iniciativa prevê o uso de blocos de concreto, em diferentes espessuras para no centro da rua ser resistente à circulação de carros-fortes que, segundo Armênio, são hoje os maiores destruidores de calçadas nessa área, e nas laterais mais fáceis de receber manutenções corriqueiras pelas perfurações de fiações e bueiros. A requalificação prevê ainda a implantação de guias de acessibilidade e mobiliário urbano. Quando questionado se ao tirar o atual desenho do pavimento para substituir pelo concreto gera alguma perda estética para o centro, ele alegou que o centro tem bastante informação e fachadas que se destacam e que o piso neutro ajuda a valorizar os prédios.

Image for post

De quem é a responsabilidade
José Armênio traz outro dado surpreendente: 16% das calçadas da cidade de São Paulo são de responsabilidade da Prefeitura, e elas recebem aproximadamente 80% do fluxo a pé da cidade. Isso significa que, se a gestão municipal investir dinheiro público na qualificação das calçadas que são de sua própria responsabilidade, já garante que grande parte das viagens a pé sejam mais seguras e agradáveis.

Image for post

O patrimônio arquitetônico da cidade
Como arquiteto, nosso convidado dedica especial atenção ao desenho dos prédios. Logo no começo do passeio, ele registra como positivo o fato de o edifício Martinelli contar com informação sobre o projeto arquitetônico na própria fachada. Mais para frente, aponta o prédio do Sesc 24 de maio, projeto do Paulo Mendes da Rocha, que considera uma referência. Em frente ao Sesc encontramos um hotel que mantém a fachada bem conservada, o que contribui para uma experiência positiva ao se deslocar a pé.

Image for post
Carro invade calçada para acessar um dos inúmeros estacionamentos da área central

Carros, para que te quero
Ainda no início do trajeto, quase fomos atropelados por uma moto que saía de uma garagem em alta velocidade. Depois, não foram poucos os momentos nos quais percebemos o quanto a presença de garagens no centro expõe os pedestres a riscos mesmo quando andam na calçada. Para marcar isso, José Armênio marcou como negativo os carros subindo na calçada da avenida São João, que já conta até com pintura de sinalização para carros no piso, retirando simbolicamente o espaço de pedestres.

Conversamos sobre a grande concentração de garagens na área mais central na cidade, que produz uma consequência extremamente negativa: atrai viagens de carros particulares em uma área que concentra muitos ônibus congestionados. Muitos desses estacionamentos, no entanto, funcionam de forma irregular — o que significa que a Prefeitura não está fazendo sua parte na fiscalização. Uma das surpresas do caminho foi quando constatamos que a área onde outrora funcionava o Cine Ipiranga se tornou um estacionamento gigante, como outros edifícios da região.

Image for post
Pedestres desfrutam de uma pausa no calçadão da rua Sete de Abril

Espaços pró-pessoas
No calçadão do centro novo, deparamos com árvores onde cidadãos encontram espaço para descanso no dia a dia — seja colocando cadeiras e mesas sobre suas copas ou sentando nos seus canteiros. Já ao passar pela rua 7 de abril, que foi totalmente repaginada em 2016, discutimos sobre a importância dos bancos com encosto e lixeiras, que servem como pontos de apoio para os pedestres — e deveriam se reproduzir por toda a cidade. José Armênio destaca que a instalação de mobiliário ajuda a desenvolver entre cidadãos e cidadãs a “cultura urbana” — ou seja, o zelo pelo que é público e pelos espaços de convivência.

Image for post
A ciclofaixa demarcada na calçada da avenida São Luís

Menos espaço para carros, mais espaço para pessoas
O convidado apontou sua insatisfação com a ciclovia pintada pela CET sobre a calçada da avenida São Luís — uma das mais amplas e agradáveis do centro da cidade. Ela é um reflexo da relutância dos técnicos da Prefeitura em retirar espaço do carro para compartilhá-los com modos ativos. José Armênio destaca, então, que situações como essa indicam que vivemos um momento de transição, no qual deve-se construir uma “nova materialidade” baseada na mobilidade ativa e no coletivo e em novas formas de convivência com o carro — falada por ele durante a live gravada para o Facebook.

Image for post
Mulheres descansam e conversam nas cadeiras disponibilizadas pelo Centro Aberto

Centro Aberto, cidade aberta
Chegando em nossa última parada — o espaço do centro aberto no Largo São Bento — Armênio lembra que a iniciativa, que propõe transformar espaços residuais da cidade em locais de permanência, está entrando em uma nova fase. Isso significa que está sendo estudado expandir o projeto para outras localidades da cidade, fora da área central. O Centro Aberto também foi selecionado para ser apresentado na próxima edição da Bienal de Veneza.

Image for post
Leticia entrevista o convidado

Em sua fala final, José Armênio destaca a importância de se transformar os espaços da cidade tendo o pedestre como principal foco. Segundo ele, a SPUrbanismo está comprometida não só em requalificar os calçadões da área central, mas também auxiliar a Prefeitura na tarefa de repensar o sistema de calçadas para o restante da cidade. Seguiremos acompanhando as iniciativas e monitorando as políticas públicas em curso.

Obrigada por nos acompanhar e até o próximo episódio!

Written by

ONG que tem como fim melhorar a experiência de caminhar nas cidades.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store