Sentindo nos Pés com Bruno Covas

SampaPé leva o atual prefeito de São Paulo a experimentar a perspectiva de quem se desloca a pé pela cidade

Confira aqui o vídeo completo do programa Sentindo nos Pés com Bruno Covas

O Sentindo nos Pés é um projeto que leva autoridades a caminhar para refletir sobre as condições desse meio de transporte em São Paulo. Engana-se quem pensa que se trata de uma caminhada recreativa — antes de iniciar o programa, damos a tarefa ao convidado de registrar o que identifica de positivo e negativo para a mobilidade a pé nas ruas.

O trajeto escolhido, passando por três praças

O caminho
Não é fácil encontrar um espaço na agenda de qualquer prefeito. Por isso, o trajeto foi sugerido pela sua assessoria, que avisou sobre o evento de inauguração de equipamentos públicos na Praça Princesa Isabel, (como quadra de esportes, bebedouros e banheiro público). Decidimos então sair de lá em direção à sede da Prefeitura de São Paulo, local de trabalho de Bruno Covas.

Muitos buracos
Apesar de estar na área central da cidade, é possível encontrar muitos obstáculos nas calçadas. Chamou a atenção de Bruno Covas a quantidade de buracos, falhas no calçamento e bueiros destampados nas calçadas. Uma vez que o prefeito regional da Sé, Eduardo Odloak, acompanhava a atividade, Bruno Covas direcionava as reclamações sobre as calçadas diretamente a ele. Isso porque, uma vez que em geral a responsabilidade pela construção e conservação da calçada é do proprietário do terreno, cabe à Prefeitura Regional multar e notificar as calçadas irregulares. No entanto, no centro da cidade, grande parte dos passeios das principais avenidas e ruas comerciais é “adotada” pela Prefeitura, segundo o Programa Emergencial de Calçadas (PEC). Pelo PEC, a Prefeitura é autorizada a gastar do seu próprio orçamento para regularizar calçadas estratégicas para o deslocamento de muitos paulistanos e paulistanas. Além disso, o centro concentra o maior número de prédios e equipamentos municipais, o que também passa a responsabilidade pela calçada para a Prefeitura.

Bruno Covas faz um dos muitos registros de falhas nas calçadas

Soluções para as calçadas da cidade?
Conforme apareciam os problemas nas calçadas, perguntamos ao prefeito sobre as soluções que poderiam ser trazidas para resolver os inúmeros problemas relacionados à falta de acessibilidade nos passeios públicos. Conversamos então sobre a Comissão Permanente de Calçadas (CPC) — uma estrutura organizacional, criada ainda quando ele era o titular da Secretaria de Coordenação das Prefeituras Regionais, com o intuito de reunir todas as secretarias e empresas municipais relacionadas ao tema. Assim, defende Covas, os diferentes órgãos teriam que atuar de maneira integrada e abrir mão da visão segregada sobre o cuidado com as calçadas da cidade. A CPC agora está ligada ao gabinete do prefeito, o que pode trazer mais prioridade às ações relacionadas — como, por exemplo, o problema dos inúmeros buracos e remendos realizados pelas empresas que usam o subsolo da cidade para fornecer serviços de eletricidade, telecomunicações, água e esgoto.

Leticia do SampaPé grava as falas do secretário Cid Torquato

Contribuição especial
O secretário da Pessoa com Deficiência (SMPED), Cid Torquato, acompanhou todo o trajeto conosco. Uma vez que ele se desloca com o uso de cadeira de rodas, ajudou a evidenciar os problemas de acessibilidade da cidade, principalmente as faltas de rampas de acesso nas calçadas. Também veio de Torquato a informação de uma verba da SMPED para adequar rampas de acessibilidade em calçadas da cidade. Ao final do trajeto, ele trouxe um apontamento importante mas praticamente imperceptível para pessoas sem dificuldade de locomoção: faixas de pedestres que passam por sucessivas pinturas adquirem “alto relevo”, o que gera uma trepidação perigosa para cadeiras de rodas.

Cidadão aborda o prefeito para colocar suas reivindicações

A visão dos usuários dos serviços públicos
Caminhar com o prefeito da cidade pelas ruas é uma oportunidade de proporcionar encontros diretos com a população, que enxerga nesse momento uma oportunidade de conversar diretamente com uma autoridade e expor seu ponto de vista sobre a gestão. Enquanto andávamos pela alameda Barão de Limeira, um cidadão abordou o prefeito para reclamar dos serviços oferecidos à população em situação de rua. Ali então se desenrolou uma conversa de alguns minutos sobre problemas e possíveis soluções, que terminou com cumprimentos.

A visão da Fonte Monumental, na praça Júlio de Mesquita

Patrimônio e área de descanso
Ao chegar na Praça Júlio de Mesquita, entre a alameda Barão de Limeira e Avenida São João, paramos para gravar uma live para o Facebook. Após a gravação, Covas fez um registro positivo da Fonte Monumental, grande atração da praça, que foi recuperada pelo Departamento do Patrimônio Histórico (DPH), assim como a fonte do Vale do Anhangabaú, que seria registrada ao final do trajeto. Aproveitamos para chamar a atenção para outros atrativos daquela praça — a presença de muitas árvores, a possibilidade de escutar o barulho dos passarinhos (!) e os espaços para descanso, tão importantes para quem se desloca a pé. Além disso, a fonte da praça Júlio de Mesquita é uma das poucas que dispõem de informação sobre sua autoria e história.

Água não se nega a ninguém
Outro destaque foi o fato de passarmos por três praças em um trajeto curto, algo muito positivo, porém sem nenhuma conectividade, como informações ou acessibilidade. Na praça da República, Bruno Covas, questionou o Prefeito Regional da Sé lá havia bebedouros, pois acabara de inaugurar este equipamento na Praça Princesa Isabel. Com a negativa, nós aproveitamos para propor a instalação de bebedouros ali e em outros locais do centro.

Pessoas tentando atravessar a rua pelo caminho mais lógico

Por onde atravessa?
A caminhada foi um pouco diferente do que estamos acostumadas no programa Sentindo nos Pés, pois estávamos acompanhadas por um time de assessores e secretários, conformando em torno de 20 pessoas. Além disso, agentes da Guarda Civil Metropolitana e da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) monitoravam o tráfego, o que em alguns momentos nos impedia de sentir quais as dificuldades reais de atravessar uma avenida quando os motoristas não respeitam a prioridade, por exemplo. No entanto, foi possível se deparar com algumas situações que expunham a necessidade de o poder público intervir e adequar as áreas por onde as pessoas atravessam as ruas.

O primeiro espaço estava na travessia da Avenida São João na altura da praça Júlio de Mesquita, onde a criação de uma área de espera no meio da travessia diminui a exposição de pedestres a riscos. Já o segundo estava no acesso da rua Timbiras à praça da República encontramos pessoas tentando atravessar a rua pela esquina da praça da República, local não assessorado por faixas de pedestres por uma escolha que supostamente beneficia os motoristas. Essa cena ilustra com clareza o conceito de “linha do desejo” e a importância de levá-lo em conta no desenho das ruas.

Registro de ação de marketing da campanha Maio Amarelo, organizada pela Secretaria de Mobilidade e Transportes

Aproveitamos, então, para questionar Bruno Covas sobre a adesão da Prefeitura à Visão Zero, princípio criado pelo governo da Suécia, segundo o qual nenhuma morte no trânsito pode ser considerada inevitável. Apesar de não se prolongar nas respostas, o prefeito destacou que a gestão prepara ações que visam melhorar a segurança viária e que o acompanhamento dessas ações será aproximado do seu gabinete. Também avisou que iria se reunir com o ex-prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, para debater sobre o projeto de segurança viária que a sua organização mantém em São Paulo, para o qual o próprio prefeito se disponibilizou a ser o líder técnico (até o final do ano será definido o Plano de Segurança Viária da cidade).

Santos em São Paulo
Assim que entramos no calçadão da rua Barão de Itapetininga, foi notável a diferença de ritmo — estávamos em um dos lugares mais vivos da cidade. Bruno Covas então contou sobre o projeto de requalificação dos calçadões do centro da cidade, que está sendo planejado pela SPUrbanismo. E destacou a informação de que mais de 600 mil pessoas circulam por aquela área todos os dias — o equivalente à população da cidade de Santos.

Abaixa esse volume, moço!
Quase chegando à Praça Ramos de Azevedo chamou a atenção do prefeito o volume do som de um homem com microfone que divulgava um jornal no calçadão, piorando a poluição sonora que diminui a qualidade do caminhar na região.

Uma memória dos extintos bondes de São Paulo em pleno centro

Memória dos trilhos
Outro ponto que chamou a atenção no mesmo lugar foi o “esqueleto” dos trilhos da antiga rede de bondes que cobria a cidade — e foi destruída nos anos 60 para dar lugar a grandes avenidas que, décadas depois, já estariam entupidas de carros. Essa “memória” se encontra no fim do calçadão, em frente ao theatro Municipal, mas passa despercebida porque não conta com nenhuma placa que informa do que se trata.

Cruzamos um dos primeiros cruzamentos em “X” da cidade

Travessia em diagonal
Cruzamos a travessia em diagonal da Rua Ramos de Azevedo, um dos únicos cruzamentos com tempo favorável a pedestres no centro da cidade. Quando mencionamos que até mesmo cidades americanas estão adotando as faixas de pedestres em “x”, criadas no Japão, o prefeito destacou como até mesmo as cidades do Estados Unidos, modelo global de urbanismo voltado ao transporte motorizado, tem buscado maneiras de reverter essa tendência e valorizar mais os deslocamentos ativos. Aproveitamos então para explicar como há muitos bons exemplos de soluções voltadas à mobilidade a pé em cidades latinas, como Bogotá e Buenos Aires, que podem nos inspirar.

Finalizamos o programa em frente ao local de trabalho de Bruno Covas. Ali, reafirmamos nosso compromisso, enquanto SampaPé, de seguir acompanhando, fiscalizando e contribuindo para a implantação de políticas públicas que melhorem as condições da mobilidade a pé na cidade.

Encerrando a atividade diante da Prefeitura de São Paulo

Muito obrigada por nos acompanhar e até o próximo programa, com o presidente da SPUrbanismo, José Armênio.

Mais:

Veja como foi o Sentindo nos Pés com Aline Cardoso, Secretária de Trabalho e Empreendedorismo de São Paulo, com Adriana Campelo, Diretora de Resiliência de Salvador e com Soninha Francine, vereadora de São Paulo

Veja a primeira temporada do Sentindo nos Pés.

Veja o vídeo explicativo sobre o projeto.

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ONG que tem como fim melhorar a experiência de caminhar nas cidades.

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