Quando o seu direito a caminhar na cidade foi negado?

SampaPé! marca presença no Fórum Social Mundial 2018 em Salvador com esta reflexão

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Durante a atividade

No terceiro dia do Fórum Social Mundial 2018 que teve como tema resistir é criar, resistir é transformar, o SampaPé! propôs a atividade “O direito a caminhar como direito à cidade” que constituiu em uma roda de conversa seguida de lambidaço de cartazes com mensagens de estímulo ao caminhar.

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A roda de conversa contou com a presença de participantes internacionais e de duas convidadas para aquecer a conversa: Rachel Schein, cicloativista, videomaker do seu projeto Página da Rachel onde retrata a realidade e projetos de mobilidade ativa no Brasil e parceira audiovisual do Sentindo nos Pés e Rayssa Saidel Cortez, arquiteta e urbanista, mestranda em planejamento e gestão do território na UFABC, integra o projeto Br Cidades, e foi uma das criadoras da campanha São Paulo Por Elas, junto ao Sindicato dos Arquitetos no Estado de São Paulo — SASP — parceiras do passeio a pé de março com o tema a Elas na Cidade.

Começamos a discussão relembrando que o conceito de Direito à Cidade, primeiramente cunhado por Lefebvre, definia como princípio um dos elementos que ameaçava o Direito à Cidade: o ritmo. Isso era decorrente do modernismo que estava desenvolvendo o modelo de cidades eficientes e aceleradas.

Logo apresentamos alguns dados sobre caminhar nas cidades, como a porcentagem de deslocamentos utilitários a pé. Em Salvador, segundo a pesquisa Origem Destino de 2012, 33,5% das viagens diárias são feitas exclusivamente a pé, sendo o modo de deslocamento mais utilizado. Relembrando que pequenas viagens intrabairro em sua maioria realizada por mulheres, ainda por uma questão de papel de gênero, não são contabilizadas na pesquisa, ou seja, esta porcentagem é subestimada.

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Além disso, procuramos mostrar dados ou comentar a situação de grupos que têm seu direito a caminhar privado com maior frequência por suas condições físicas, cor, gênero, idade e sexualidade, como por exemplo as mulheres, que tem seu direito limitado pelo medo, as crianças, pelo ritmo e linguagem da cidade, os idosos, que é o grupo que mais morre atropelado nas cidades e caem em calçadas, negrxs que sofrem preconceito e ameaça policial, gays, lésbicas e trans que sofrem pela intolerância e pessoas com mobilidade reduzida limitadas pela estrutura deficiente das cidades.

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Dado: Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP)

Mostramos algumas imagens do que chamamos de “crimes urbanos” para ajudar a nossa reflexão em não naturalizar as cidades como estão e entender que são crimes que atentam ao nosso direito à cidade, direito de ir e vir, direito à vida e direito a caminhar nas cidades.

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Foto: Andrew Oliveira

Ao longo de toda apresentação as pessoas comentaram situações e contribuíram para a discussão, mas foi quando a pergunta “Quando o seu direito a caminhar na cidade foi negado?” que os melhores “estalos” surgiram.

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Algumas pessoas comentaram que haviam tido que pegar taxi, por exemplo, para se deslocar na noite anterior e perceberam que isso havia sido um momento em que seu direito a caminhar havia sido negado pela insegurança. A mesma reflexão pode ser percebida quando a Rachel comentou que escolhia a bicicleta pois era a forma de deslocamento que se sentia mais segura, pela velocidade e por não ter que interagir com outros homens como no caso do ônibus, se sentindo mais livre e menos refém. Da mesma forma falamos das muitas caminhadas que deixam de acontecer, por exemplo por deficientes físicos pela impossibilidade de se deslocar nas estruturas da cidade. E até mesmo como o direito a brincar nas ruas em frente as casas está sendo negado. Foi bastante marcante a intervenção que um dos participantes fez sobre a falta de direito de negras e negros em Salvador acessarem certos espaços da cidade, e mostrando que a diferença de direitos além de racial também é espacial.

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Todas e todos percebemos, por fim, que o direito ao ritmo lento do caminhar nos é constantemente negado na vida nas cidades. Relembramos os “homens lentos” do Milton Santos:

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Satisfeitas com as discussões e o nível de consciência das e dos participantes de que suas escolhas de ir ou não aos lugares e de como ir são limitadas e podadas pela falta de direito a caminhar e por consequência direito à cidade, passamos para o segundo momento da atividade: o lambidaço.

Como o SampaPé! tem como objetivo melhorar a experiência de caminhar nas cidades e para isso usa o caminhar como meio e como fim, nesta atividade não poderia ser diferente: fomos para a rua caminhar e colar lambes.

O local foi o entorno do campus da UFBA, mais precisamente na Rua Caetano Moura onde é possível ver muitos contrastes, escadarias, calçadas insuficientes, velocidades agressivas, falta de travessias em segurança, muros e outros elementos que ficaram claro como barreiras ao direito de caminhar.

Os lambes fizeram uso de música, lemas e bom humor para mostrar que caminhar nas cidades e um direito básico.

E você já pensou quando você tem o seu direito a caminhar nas cidades negado?

Written by

ONG que tem como fim melhorar a experiência de caminhar nas cidades.

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