O perigo de “focar no pedestre” em vez de priorizá-lo

Porque a maioria das campanhas de educação no trânsito e anúncios publicitários reforçam a cultura do carro e contribuem para a depreciação do caminhar nas cidades

por Ana Carolina Nunes e Leticia Sabino*

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De tempos em tempos aparecem nas notícias e viralizam nas redes sociais “ideias geniais” de campanhas para conscientizar pedestres. De homens fantasiados de faixas de pedestres em São Paulo a painéis com barulho de atropelamento para assustar pessoas atravessando no sinal vermelho em Paris, são vários os exemplos de campanhas de educação e comunicação que organizações e governos alegam realizar com “foco em pedestres”. O que a aparente boa intenção ofusca é o fato de que essas mensagens corroboram a ideia de que pessoas caminhando não cumprem seus deveres, e por isso deveriam ser “educadas”. É mais uma maneira de culpabilizar as pessoas a pé, elementos mais frágeis da mobilidade. Que, vale lembrar, é também o modo de transporte que mais gera impactos positivos na cidade — como vitalidade urbana, segurança, ar limpo e saúde.

Além das campanhas de trânsito, as propagandas de automóveis, tão frequentes na TV, jornais e rádios, também colaboram com a depreciação do caminhar. Destacamos campanhas e mensagens em publicidade que, ao escolher os pedestres como foco e não como prioridade, são nocivas. Por isso é preciso parar de difundir mensagens que “educam” pessoas caminhando e colaboram com a cultura do automóvel e tomar coragem para efetivamente adotar ações que demonstrem a prioridade do caminhar nas cidades, nas mais diversas esferas.

“No trânsito, o sentido é a vida”
As campanhas de comunicação para pedestres voltam à tona com a recente (e feliz) revogação da resolução nº 706/2017 do Departamento Nacional do Trânsito (Denatran), que possibilitaria a aplicação de multas a pessoas se deslocando a pé e de bicicleta. Porém a sua não implementação foi justificada pelo fato de que as pessoas ainda não saberem ter “boas atitudes” ao se deslocar ativamente (a pé e bicicleta). E, por isso, estabeleceu como contrapartida a realização de campanhas de educação e segurança no trânsito “focadas” em pedestres, ciclistas e motociclistas. Este foco se define, nas palavras do presidente do Denatran, em que “os mais vulneráveis no trânsito saibam como ter uma atitude preventiva de acidentes”. Ou seja, é considerado um primeiro passo para que depois, com as pessoas já sabendo seus papéis e deveres, pudessem começar a ser sancionadas ao desrespeitá-los.

Enquanto isso, o próprio Denatran deixa de abordar o dever das cidades e dos outros modos de transporte com os deslocamentos ativos, a prevenção de acidentes e com a vida. A campanha intitulada “No trânsito, o sentido é a vida” tem sentido para que e para quem? Afinal, de que adianta nos dizer que temos o dever de atravessar na faixa quando elas mal existem, e quando existem são mal posicionadas ou diuturnamente desrespeitadas pelas pessoas em veículos motorizados? Infelizmente, as deficiências das cidades, que deveria ser a principal motivação para não se multar pedestres e ciclistas, segue sendo ignorada.

Educar pedestres?
A ideia de que as pessoas caminhando nas cidades precisam ser ensinadas a “como se comportar” remete à origem do termo jaywalking. Ele foi popularizado pela indústria automobilística, no início do século XX, como uma forma de desqualificar os pedestres que “atrapalhavam” a fluidez do trânsito dos carros que começavam a invadir as ruas das cidades norte-americanas. As pessoas que eram acostumadas a dividir espaço com charretes, bondes, bicicletas e outros veículos passaram, então, a ter que andar apenas em calçada e serem obrigadas a cruzar as vias apenas em espaços delimitados (que mais tarde se transformariam nas faixas de pedestres), sob pena de serem ridicularizadas por estarem andando “como caipiras na cidade”. A necessidade de “educar” pedestres nasceu, portanto, de uma necessidade forçada de ceder a maior parte do espaço das cidades ao novo “rei do pedaço” — o automóvel.

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Apesar da sua finalidade pouco nobre, a ideia de educar pedestres continuou ganhando força ao longo das décadas movida por outra justificativa — a de reduzir atropelamentos. Muitos órgãos de trânsito, inclusive do governo federal, continuam reforçando o pressuposto de que a maior parte do atropelamentos acontece porque as próprias vítimas não respeitam as regras de trânsito. Ignorando, no entanto, que “desrespeitar as regras” é muitas vezes a única forma de chegar a muitos lugares em nossas cidades, cujas estruturas privilegiam a fluidez dos automóveis em detrimento da segurança e do conforto das pessoas que se deslocam ativamente.

Podemos fazer um exercício e empatia usando as passarelas, muito presentes em vias expressas urbanas. Imagine que você mora de um lado de uma avenida sem semáforos que corta seu bairro, e que sua filha de 3 anos estuda em uma creche do outro lado, em linha reta. A via tem passarelas para atravessar suas 6 pistas a cada 600 metros (ou aproximadamente 4 quadras) e para chegar lá em “segurança” vocês teriam que caminhar 1.200 metros a mais, quando o trânsito vive parado e mesmo sem faixas de pedestres é muito mais lógico e confortável atravessar em linha reta.

Se a Prefeitura instalasse em sua rua uma placa com os dizeres “Pedestre, não se arrisque, use a passarela”, você se sentiria mais seguro? Você sabe que atravessar a via sem sinalização tem mais riscos de atropelamento do que usar a passarela. Portanto, a mensagem é inócua, pois o esforço que obrigam a realizar não condiz com a prioridade de caminhar na cidade. Para melhorar a sua segurança, seria mais prudente que a Prefeitura implantasse uma faixa de pedestres, com redutores de velocidade, que ligasse os lados da via. Ou seja, entender os deslocamentos e melhorar as condições do ponto de vista de quem está a pé — lembrando que somos pessoas diversas e com necessidades distintas: idosos, crianças, mulheres com filho de colo, cadeirantes, pessoas com deficiência visual etc.

O exemplo ilustra como espalhar mensagens óbvias não reduz os comportamentos que parecem inadequados, porque eles são provocados por estruturas inadequadas. Ainda mais cotidiano, basta observar nas caminhadas do dia a dia quantas vezes não há faixas de pedestres para alcançar o outro lado da rua. Isso te faz um pedestre imprudente que precisa ser “educado”, ou evidencia que a cidade não prioriza as pessoas e coloca suas vidas em risco?

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Pedestre, use sua faixa
Além das mensagens das ruas e das campanhas de governo, há outras mensagens que ampliam essa cultura urbana que ainda se volta majoritariamente contra a prioridade das pessoas: os anúncios de automóveis. Assim como as propagandas de medicamentos que dizem no final para “consultar o médico” ou as de álcool que dizem para “beber com moderação”, as de automóveis, a partir do ano de 2012, começaram também a ter uma mensagem de advertência obrigatória. Estas mensagens, determinadas Conselho Nacional de Trânsito (CONTRAN) pelo Denatran em portarias deveriam ser publicadas anualmente. Em 2014 foi o ano que a medida realmente ganhou força e esteve em todos os anúncios talvez também pelas mensagens sugeridas. Através da portaria 99/2014, o órgão definiu 6 opções de frases para os anunciantes: “Na cidade somos todos pedestres”; “Pedestre, você também faz parte do trânsito”; “Todos juntos fazem um trânsito melhor”; “Avance no respeito. Não avance na faixa”; “Pedestre, dê o sinal para sua vida”; e “Pedestre, use sua faixa”.

Por um lado, esta ação evidencia o entendimento de que automóveis são produtos nocivos e perigosos, e por isso precisam de advertência, assim como os remédios e cigarros. Por outro lado, confirma a falta de entendimento sobre a priorização da vida e das pessoas na circulação nas cidades. Das 6 mensagens evidenciadas, quatro estão falando diretamente com “os pedestres” e apenas uma enfatiza explicitamente a obrigatoriedade de motoristas respeitarem a prioridade aos elementos mais fragilizados. Ou seja, mais um vez todas elas focam nos pedestres mas não priorizam o caminhar. Ainda, nenhuma delas alerta para os perigos associados ao uso do produto anunciado, ajudando assim a culpabilizar e responsabilizar pedestres pela insegurança no trânsito.

Mesmo sem ter dados de quais foram as mais utilizadas, ficou bastante marcada a frase “pedestre, use sua faixa” nos anúncios publicitários. Para quem se desloca a pé com frequência, a recomendação parece uma piada de mau gosto — afinal, quem conta com faixas de pedestres bem sinalizadas e posicionadas em todo o seu caminho para usá-las?

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Além das frases definidas pela autoridade nacional de trânsito, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR) inclui veículos motorizados nas categorias especiais de anúncio, e explicitam que as propagandas não podem conter sugestões de utilização do veículo que possam colocar a segurança de terceiros em risco, tais como “desrespeito à sinalização, desrespeito aos pedestres e às normas de trânsito de uma forma geral”. Pensando no efeito das mensagens audiovisuais sobre a cultura urbana, seria mais efetivo que os anunciantes de automóveis fossem cobrados pelas autoridades de mostrar bons comportamentos ao dirigir nas cidades, como por exemplo, parar nas faixas e mostrar que as pessoas a pé têm prioridade em conversões.

A cultura das cidades é construída a partir de muitos elementos, desde as mensagens que se difunde até o que efetivamente se constrói. Apenas conseguiremos ter cidade caminháveis e comportamentos que priorizem a “vida”, como as frases das campanhas tanto gostam de enfatizar, quando a cultura do caminhar passar a dominar sobre a cultura do automóvel desde as campanhas de educação e comunicação até as políticas públicas e projeto urbanos.

*Texto originalmente publicado no site da CartaCapital em 29 de abril de 2019

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ONG que tem como fim melhorar a experiência de caminhar nas cidades.

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