Cidades pensadas por mulheres

O que muda quando as especialistas são elas

“O medo das mulheres “tem gênero”, no sentido que se baseia em sentimentos de vulnerabilidade frente aos homens e está marcado pela ameaça de delitos relacionados com o sexo. O medo das mulheres, além disso, está espacializado. Suas percepções do perigo tem uma geografia específica e isso pode determinar os movimentos rotineiros das mulheres no espaço urbano.”
Fran Tonkiss, 2005. Space, the City and Social Theory

Mulheres foram historicamente excluídas dos processos de planejamento das cidades, mas sempre sentiram na pele as dificuldades de se moverem e vivenciarem o espaço público com segurança e qualidade. Com o avanço das discussões sobre relações de gênero, desenvolvimento sustentável e direito à cidade, emergem a cada dia soluções para formar as tais “cidades para mulheres” — ainda que elas muitas vezes sejam planejadas, vejam só, por homens.

Com a intenção de reverter o estado atual de discussões e metodologias sobre cidade, gênero e desenvolvimento urbano sustentável, que muitas vezes estão restritas às salas com ar-condicionado, SampaPé!, Rede MÁS e o Fórum Regional de Mulheres da Zona Norte uniram forças para criar o projeto Mulheres Caminhantes!

Um projeto diferente

O projeto, que teve essa edição apoiada pelo WRI Brasil, propõe integrar metodologias que observam os problemas de segurança de gênero e de qualidade do espaço público, que normalmente são avaliadas de maneira separada. São duas as principais inovações da metodologia: a integração das diferentes perspectivas e o protagonismo das mulheres do território.

Entendemos que não é possível pensar nos problemas que meninas e mulheres enfrentam nos espaços públicos sem considerar, de maneira integrada, perspectivas de mobilidade sustentável e segurança de gênero. Somente com uma análise interdisciplinar dos problemas é possível pensar em soluções sistêmicas que promovem os meios de deslocamento coletivos e ativos ao mesmo tempo que garantem mais segurança para a circular na cidade.

E quem melhor que as mulheres que circulam por um território para apontar os problemas ao se deslocar e propor soluções? Em Mulheres Caminhantes!, meninas e mulheres são as especialistas que analisam o espaço e desenham soluções integradas e efetivas para melhorar a segurança de gênero e a mobilidade sustentável.

O que fizemos?

Organizamos três encontros na paróquia Nossa Senhora de Sant’ana, que fica pertinho do Terminal Santana, e contamos com a participação de mulheres diversas, que trouxeram diferentes perspectivas: de jovens, idosas, mães, negras, lésbicas, líderes comunitárias e outras. No primeiro encontro, que foi em uma quinta à noite, conversamos sobre a região e mapeamos os lugares onde elas circulam mais ou evitam. E então saímos juntas à rua, porém em silêncio e buscando viver aquela experiência de forma individual para perceber como nos sentíamos ao circular à noite por cada quadra e cada rua.

O segundo encontro aconteceu em um sábado e foi concentrado analisar o espaço público. Depois de bater um papo sobre o que significa sentir medo enquanto mulher, os diferentes tipos de violência que existem e o que significa caminhabilidade, fomos para a rua novamente. Dessa vez, escolhemos três trechos: o que a maior parte das mulheres havia se sentido bem ao caminhar no primeiro encontro e os dois que provocaram as piores sensações no grupo.

Para a análise das condições do espaço no dividimos em quatro grupos dedicado a cada “camada” do espaço: 1) camada de baixo, considerando pisos, condições e cruzamentos; 2) camada de cima, observando os mobiliários, arborização, fachadas, muros e outros elementos; 3) camada de conexão e acesso, que avaliava a integração com outros modos de transporte, informação e acessos no caminho e por fim 4) cama de usos e pessoas, que transcendia o espaço construído e se dedicava a compreender a diversidade, o comportamento e violências simbólicas no caminho.

No último encontro, convidamos algumas parceiras da luta das mulheres pelo direito à cidade para participar do encerramento da metodologia. Nesse encontro, discutimos os resultados da avaliação para entender o que faz com que nos sintamos menos seguras ao nos deslocarmos em alguns lugares de Santana (e da cidade). Para isso, as participantes apresentaram como foi a avaliação dos caminho com suporte das fotos, que ajudam a registrar e manter uma memória dos elementos positivos e negativos desde a perspectiva das caminhantes. Depois, divididas em grupos, as mulheres determinaram quais eram os problemas prioritários a serem enfrentados e pensaram em soluções para que o Terminal Santana seja, ao mesmo tempo, um local que contribua com a segurança de gênero e com a mobilidade sustentável e, como consequência, com a mitigação às mudanças climáticas.

Problemas e Soluções

Surpreendentemente, ainda que as mulheres que participaram de todo o processo do projeto tenham avaliado as ruas juntas, os quatro grupos do terceiro encontro consideraram problemas diferentes prioritários. E mais do que isso, apontaram quatro caminhos completamente diferentes, mas complementares.

A tabela ao lado resume os problemas e soluções apresentadas pelo grupo, que são os desafios do projeto ter avanços práticos no território com colaboração de outros atores e do poder público.

Com chave de ouro

Toda essa caminhada foi apresentada no evento de apresentação dos resultados do projeto, realizado no dia 05 de maio no centro de convenções do Expo Center Norte. Ao final do evento, foram realizadas rodas de conversas entre as pessoas presentes para definir compromissos e encaminhamentos para que as propostas apresentadas sejam implementadas. Entre os compromissos estabelecidos estão: reuniões entre o Fórum de Mulheres da Zona Norte e Prefeituras Regionais da Zona Norte para a execução das melhorias relacionadas a zeladoria e infraestrutura urbana, o protocolo do Relatório Final do projeto junto à Prefeitura para que vereadoras e vereadores possam cobrar a implementação das soluções, a promoção de rodas de conversa sobre violência sexual e masculinidades, ação de artivismo, entre outros.

A sequência pretendida para a conclusão do projeto, além de conseguir a implementação das soluções, é que ele seja realizados em outros lugares da Zona Norte e das demais regiões da cidade de São Paulo. Essa edição do projeto teve apoio do WRI Brasil e fez parte da continuidade de um processo iniciado junto à organização em 2017, com a realização do Seminário “Mobilidade urbana e a perspectiva das mulheres” e da “Coalizão Mobilidade Urbana na Perspectiva das Mulheres”.

O que é uma cidade para mulheres?

Para colaborar com essa discussão e registrar todo o aprendizado gerado durante esse processo, publicamos o relatório do projeto, que pode ser acessado aqui. O documento traz reflexões sobre como a cidade apresenta dificuldades para que as mulheres se desloquem e vivam o espaço público com segurança e qualidade, tanto do ponto de vista social, como ambiental. E traz resumos acessíveis e de linguagem simples sobre as conclusões apontadas pelas próprias participantes, como o exemplo ao lado.

Mulheres Caminhantes” continua! Vamos seguir trabalhando por cidades que também sejam construídas para mulheres e pensadas por nós. :)

Written by

ONG que tem como fim melhorar a experiência de caminhar nas cidades.

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