Aprendemos Caminhando?

Como o caminhar, um ato ancestral, continua sendo a melhor forma de nos desenvolver como indivíduo e coletivo

A abertura da Semana do Caminhar 2019 buscou responder este questionamento através de conversas com quem estuda o tema e com quem promove aprendizados caminhando

Image for post
Image for post

Caminhar nos define como humanos
Antes de chegar ao que aprendemos no dia a dia, os convidados da primeira mesa, Edith Derdyk e José Guilherme Magnani enfatizaram a importância do caminhar no nosso desenvolvimento como espécie e como sociedade.

“Caminhar é civilizatório” disse Edith Derdyk em sua fala inicial, enfatizando que nós, seres humanos, somos os únicos animais que se deslocam de pé e caminhando sobre duas patas — com exceção dos cangurus, que pulam, e dos pinguins, que dão pequenos passinhos. Neste sentido, Magnani relembrou que desde que “descemos das árvores”, caminhar foi também uma questão de sobrevivência.

Image for post
Image for post

Estar a pé perde prestígio nas cidades modernas
Dessa retomada do início do caminhar e de como isso nos caracteriza como população humana, saltamos para o cenário atual das cidades. A nobreza do caminhar, que nos fez desenvolver como espécie, é relegada a partir do momento em que os automóveis são considerados reis, símbolo de status, dominando os espaços e as estruturas. Assim, o caminhar passa a ser visto como algo “menor”.

Mauro Calliari, mediador da mesa, enfatizou que no dicionário o termo “pedestre”, além de significar “aquele que se encontra a pé” é também “rústico, modesto e sem brilho”. Com relação às estruturas que foram deixando o caminhar de lado e colocando o fluxo motorizado no centro, Magnani relembrou os boulevards de Haussmann em Paris, que mudaram a estrutura viária da cidade abrindo largas avenidas (Haussmann foi responsável pela reconfiguração urbana de Paris na época da França imperial, conhecido por ser um planejamento anti-barricadas pela dimensão das ruas).

Mas é também esta mudança estrutural que dá origem aos flaneurs, que contestam a cidade e suas mudanças através do caminhar sem rumo e “improdutivo”, contestando a cidade máquina. Caminhar sem destino final passaria então a ser visto como um ato de resistência, num contexto capitalista e racional que exige que todo ato se enquadre em uma lógica de produção, consumo e eficiência. Edith resgatou que atualmente não é apenas a estrutura das cidades que empobrece as experiências do deslocamento. Além disso, afirmou como o caminhar com aplicativos de mapas que indicam o caminho anula uma parte da experiência do corpo com o território. Para ela, “o caminhar deveria ser um meio de construir e descobrir as diferentes linhas da cidade”. Ainda, somado a isso tudo há uma “cultura do medo” que tenta tirar as pessoas dos espaços públicos da cidade.

Caminhar continua nos definindo
Mas é caminhando que colocamos nosso corpo no espaço e nos posicionamos, lembra Edith. É também como reconhecemos e conhecemos nosso próprio corpo. Através do caminhar, ela diz, respondemos constantemente “o que o corpo pode e o que o corpo pede?”. Para Magnani, é preciso deixar-se afetar pelos outros e pelo meio nos caminhos, um princípio da psicanálise aplicado aos caminhares — assim o corpo registra o meio. Entrar em contato com outro para compreender as outras pessoas. Ele reforça que apenas a pé reconhecemos como se vestem, seus jeitos, entre outras coisas. Acredita também que o caminhar pode ser um meio de reduzir as desigualdades na cidade, derrubando as barreiras (visíveis ou invisíveis). Com isso, Edith retomou que é a partir dessa prática dos espaços públicos e dos deslocamentos que inventamos o cotidiano, conforme a teoria de Michel de Certeau.

Caminhar como método
Ambos reforçaram sobre o registro do caminhar. Ainda que o caminhar seja uma prática efêmera, os registros fazem com que seus efeitos continuem impactando e perdurando. Podendo ser através de relatos etnográficos, como os realizados pelo Núcleo Antropologia Urbana (NAU) coordenado por Magnani, ou através de arte, como os alunos de Derdyk na pós-graduação coordenada por ela n’A Casa Tombada.

Edith recorreu à etimologia para reforçar como o caminhar é método de exploração, aprendizado e expressão. A palavra método, por exemplo, tem met de meta e hodos de caminho, em grego. Experiência, em latim, tem o ex de exterioridade e peri de perímetro, limite (observando que tem pé na palavra) e entia, aprender além das fronteiras. Nesse sentido, a experiência pode ser interpretada como sair para caminhar, olhar para fora e voltar diferente. O caminhar com efeito no indivíduo, retomando “o deixar-se afetar”, como Magnani havia dito no começo.

Edith observou que a diferença da prática do caminhar como método para artistas e cientistas é uma questão de “ordem”. Enquanto os cientistas caminham buscando respostas, os artistas caminham buscando perguntas. E desse modo, o caminhar é escrever e ler ao mesmo tempo, é captar e criar. Mas em ambas perspectivas como capturar e reproduzir as efemeridades do caminhar.

Essa grande aula deu vontade de seguir o papo por muitas horas e aqueceu nossas ideias.

Aprender caminhando na prática da cidade
Depois de teorizar e refletir sobre “os caminhares”, foi hora de conhecer aprendizados caminhantes e iniciativas que promovem experiências de troca de saberes coletivos através da caminhada.

As iniciativas convidadas foram o Instituto Árvores Vivas, o Caminhada das Quebradas e o Carona a Pé. Enquanto o primeiro, representada pela Juliana Gatti, busca resgatar a relação com a natureza no espaço urbano, o grupo de da Zona Leste, com a presença de Alberto Camargo, promove caminhadas que valorizam o próprio território através de uma prática saudável e um novo olhar. Já a última iniciativa, representada pela Carol Padilha, promove o caminho escolar a pé e em grupo.

Image for post
Image for post

Juliana falou que a valorização das árvores no ambiente urbano não acontece apenas através de um processo cognitivo de identificação das árvores e aprendizado sobre espécies, origem e usos. Além disso, é preciso valorizar as sensações geradas com a presença de natureza, por exemplo, a partir das temperaturas na pele quando não há árvore e quando há, da brisa que bate e, mexe o cabelo, da umidade no ar que se respira. Essas sensações são interações do meio com o nosso corpo e geram muitos aprendizados a partir da experiência.

Alberto mostrou que em grupo é possível gerar disposição, bem estar e conhecimento da própria vizinhança. Ele, corredor nato, já saía explorando as ruas e se motivou a começar uma iniciativa para estimular mais pessoas a serem mais saudáveis usando as ruas como espaço. Neste processo, sua companheira, Shirley, também fundadora da Caminhada das Quebradas, compartilhou como foi contagiada a perceber seu bairro de uma forma diferente: conhecendo as ruas de trás da sua pelo nome, descobrindo novas vistas da cidade e explorando a arte e história que estavam tão perto dela e de seus caminhos cotidianos.

Andrew Oliveira, sociólogo, pedativista e colaborador do SampaPé! que estava mediando a conversa, citou a frase do fundador do Walk21:“caminhar é a primeira coisa que se deseja fazer, quando criança, e a última que se quer deixar de fazer ao envelhecer” (tradução livre). A partir desta frase, Carol compartilhou uma história encantadora que aconteceu em uma das rotas do Carona a Pé. Em um dos trajetos escolares, há uma travessia de uma via rápida e de fluxo intenso, que oferece maior perigo para as pessoas e para completar o tempo oferecido para as pessoas atravessarem é muito pouco. Um casal de velhinhos do bairro, que precisa atravessar todas as manhãs neste local, observou que o grupo de crianças passa por ali diariamente no mesmo horário que eles atravessam. Então começaram a aguardar pela chegada do grupo a pé para aproveitar a segurança gerada pela travessia das crianças para atravessarem juntos a rua, pois a velocidade do caminhar é parecida com a sua.

Com esta história, a Carol quis mostrar como pensar a cidade para as crianças e seu desenvolvimento significa contemplar mais pessoas que são mais vulnerabilizadas pelas estruturas atuais, como idosos. E como é importante ir para a rua e estar caminhando para perceber estas injustiças e reivindicar cidades mais amigáveis, com mais oportunidade de trocas e aprendizados.

Image for post
Image for post

Percebeu-se que as iniciativas têm muita conexão, e que podem aprender e se somar para que as experiências caminhantes que eles promovem sejam mais ricas, como caminhar na ZL observando a natureza e promover rotas escolares por lá. E foi assim que se iniciou a Semana do Caminhar 2019: com muitas reflexões e perguntas para levar em nossos “caminhares” e muitas novas formas de observar e estar na cidade. É possível assistir todo evento de abertura neste link.

Written by

ONG que tem como fim melhorar a experiência de caminhar nas cidades.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store