40% dos estabelecimentos de alimentação na avenida paulista abriram depois da Paulista Aberta

O “Paulista Aberta Lab”, criado pela organização SampaPé!, estreou em janeiro, analisando a relação das fachadas com o programa que abre a avenida para as pessoas semanalmente

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Novos estabelecimentos de alimentação na avenida com balcão de venda direto para as calçadas, com filas aos domingos. Foto: SampaPé! — tirada em campo durante a pesquisa.

Neste ano, 2020, a Paulista Aberta — programa que abre o espaço viário para usufruto das pessoas todos os domingos e feriados, por meio de bloqueio de acesso motorizado — completa 5 anos. Com meia década de existência, além de ser consagradamente um dos grandes acontecimentos aos domingos na cidade, é possível que tenha alterado as dinâmicas urbanas e as estruturas na avenida.

Pensando nisso, a ONG SampaPé! iniciou neste ano um laboratório urbano para estudar e observar especificamente as mudanças e atividades na avenida: o Paulista Aberta Lab. No mês de janeiro, um grupo de pessoas participou de oficinas ministradas pela organização para co-realizar a avaliação se as fachadas no nível da rua se alteraram nos últimos anos por influência da avenida de lazer e também como se dá o uso das fachadas durante o programa.

Fachadas e Paulista Aberta

As fachadas foram escolhidas como o tema de estréia do laboratório pois é a estrutura urbana de interface entre o espaço privado e o espaço público. Assim, são alteradas a partir de ação dos privados mas de acordo com o uso do espaço da rua, compondo assim o que se chama “esfera pública”. São as fachadas também que podem ter alterações que duram para além do tempo do programa e que nos dão pistas sobre os efeitos na economia e consumo, assim como, a diversidade do público que frequenta.

O processo de observação e análise

Para observar como as fachadas poderiam ter se alterado ou como são ocupadas aos domingos o grupo olhou para teorias urbanas sobre fachadas e a partir do conhecimento sobre a avenida criou algumas hipóteses de mudanças. Entre elas, destacam-se as hipóteses de que abriu-se mais estabelecimentos de alimentação na avenida e que os mesmos implementaram balcões de venda direta para as calçadas e, também, que as fachadas de locais fechados aos domingos (que estão inativas) são “ativadas” por atrações culturais e venda de produtos por ambulantes durante a Paulista Aberta. Com as hipóteses criadas definiu-se o método para averiguar e observar suas confirmações.

Foi realizado, então, um levantamento com visita à avenida no domingo — dia 26 de janeiro. O grupo caminhou toda a via fazendo registros por foto, medindo fachadas e anotando sobre os acontecimentos e usos. Com esse levantamento em mãos, outros grandes aliados foram os mapas e imagens por satélite disponíveis online que ajudaram a avaliar o “antes e depois” das fachadas e usos, assim como, medir o tamanho dos lotes. A constatação das hipóteses mais importantes foram divididas em “materiais” — o que se alterou de forma estrutural — e “imateriais” — usos efêmeros aos domingos — , destacadas a seguir.

Caminhar e comer, comer e caminhar

Na avenida paulista há 43 estabelecimentos de alimentação nas fachadas no nível da rua que estão abertos aos domingos, 18 deles (40%) não existiam antes da Paulista Aberta. Aproximadamente ⅓, ou precisamente 13 estabelecimentos, tem balcão na fachada para realizar vendas diretamente nas calçadas. Além disso, há dois locais que as fachadas são compostas com barraquinhas de alimentação: o Market Paulista e a Alameda Rio Claro — que também se tornaram pontos importantes para comer aos domingos — e propiciam a presença de vendedores que não podem assumir custos fixos tão elevados.

Nesse sentido, o aumento dos locais de alimentação na avenida, abertos aos domingos e principalmente com balcões é um reflexo do espaço das ruas como destino. Esse novo uso da avenida como lazer e a vontade de estar nas ruas é um dos fatores importantes que estão moldando essas alterações de usos e suporte das fachadas na via.

O tipo de estabelecimento de alimentação com maior presença, em número, nas fachadas da avenida são os cafés (com 11 estabelecimentos), seguido de fast food (7 estabelecimentos) e lanchonetes (6 estabelecimentos). Nos balcões, o produto principal vendido é sorvete (7 estabelecimentos), seguido de pastel (4 estabelecimentos). O valor para adquirir um sorvete nos balcões existentes varia de R$1,50 a R$13,90, para aproximadamente a mesma quantidade do produto, sendo o menor valor de redes de fast-food e o maior de marcas gourmet. Ambas alternativas tem lojas em diversas alturas da avenida e filas para comprar. A presença do comércio com diversidade de preço e “marca” pode servir como termômetro da diversidade de público. A constatação da oferta do mesmo produto com distinto acesso econômico, mostra, por consequência, a diversidade de perfis socioeconômicos pessoas frequentam a avenida aos domingos.

Tamanho não é documento

As menores fachadas na avenida são do Mr. Cheney, pequena loja-balcão de cookies com apenas 1 metro de extensão, e de uma das unidades do Pastel da Maria com aproximadamente 2,4 metros de extensão, sendo metade balcão voltado para a calçada. Ambos estabelecimentos vieram após a Paulista Aberta — ou seja, depois de agosto de 2015. A diminuição das fachadas está atrelada a adaptação dos estabelecimentos ao fluxo a pé, com o estreitamento da interface com a calçada, aumenta a possibilidade de diversidade e a atratividade em caminhar. Assim como, só é possível ter lojas tão pequenas em ruas onde há intenso fluxo de pessoas a pé.

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A menor fachada da Paulista. Foto: SampaPé! — tirada em campo durante a pesquisa.

Usos efêmeros: fachadas “ativadas”

A Avenida Paulista possui 4.537 metros lineares de fachadas em toda sua extensão, das quais aproximadamente metade (52%) é “inativa” aos domingos. Ou seja, 2,3 quilômetros da via são fachadas de locais fechados, murados ou bloqueados, tais como, grades de edifícios residenciais, muros de edifícios comerciais, acessos a estacionamentos fechados e até mesmo portões de galerias comerciais. Essa situação gera oportunidade para que o espaço seja ressignificado e ocupado de forma temporária por artesãos, artistas e vendedores ambulantes. Dessa forma, foi possível identificar que 55% das fachadas “inativas” são “ativadas” de forma efêmera — quase 1.300 metros — durante a Paulista Aberta.

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Fachadas que são “inativas” ganham novos usos e significados na Paulista Aberta, como grades com camisetas expostas. Foto: SampaPé! — tirada em campo durante a pesquisa.

Ativação das fachadas

Identificamos quatro tipos de ativação das fachadas: 1) por uso espontâneo das pessoas que frequentam, como crianças brincando e pessoas sentadas; 2) como “palco”, com apresentações de artistas de rua; 3) como ampliação de comércio de alimentação existente, com mesas na calçada; e 4) como espaço expositivos e de venda temporária, com ambulantes dos mais variados produtos.

No primeiro tipo de ativação, observou-se o uso de diversas escadarias de acesso a prédios e muretas; no segundo, a maior parte são portões metálicos de estabelecimentos fechados. No caso de bares e cafés com mesas na calçada, observou-se que a maioria já tem essa prática durante a semana, porém, aos domingos ampliam a área ocupada, podendo aumentar a clientela, utilizando espaços em frente aos acessos inativos de lojas e edifícios comerciais.

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Uso de espaços fechados aos domingos com mesas nas calçadas. Foto: SampaPé! — tirada em campo durante a pesquisa.

A exposição de produtos e artes dos comerciantes ambulantes se adapta aos suportes disponíveis. Notou-se, por exemplo, que muretas e escadas são boas para expor quadros; gradil para pendurar cabides e roupas; bem como, portões metálicos servem de suporte para exibir posters e imãs. Um dos casos curiosos sobre a organicidade e adaptabilidade da exposição de produtos de forma temporária, foi observada no uso de andaimes de obras de um prédio em reforma como cabideiro para venda de roupas.

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Andaimes como cabides para roupas vendidas na Paulista Aberta. Foto: SampaPé! — tirada em campo durante a pesquisa.

Esse olhar para os usos temporários colaboram com a reflexão de que ter espaços “inativos” e livres oferecem oportunidade para usos espontâneos, o que promove maior flexibilidade e diversidade, e ajuda entender as demandas de cada tempo. Assim como a o espaço viário da avenida paulista se transforma em uma “folha em branco” aos domingos para ser “colorida” pelas pessoas, o mesmo acontece com as fachadas sem uso definido na via. Dessa forma, se reflete sobre a importância de manter fachadas em lugares com muita vitalidade livres para esse uso espontâneo e flexível.

Nem tudo são flores

O levantamento também observou alterações negativas, potencializadas pela abertura da via para as pessoas com frequência. Uma das mudanças constatadas foi a inserção de materiais nas fachadas que hostilizam a relação entre espaço público e privado. Esse registro teve como foco o bloqueio de espaços de fruição, ou seja, espaços privados que costumam ter acesso ou uso público. Um dos casos mais emblemáticos e evidentes desta hostilidade dos domingos foi observada na escadaria do prédio da Gazeta. O local, que é considerado um dos poucos lugares para se sentar na avenida ao longo da semana, tem o acesso restrito durante a Paulista Aberta por meio da instalação de gradis temporários.

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Escadaria da Gazeta com acesso bloqueado aos domingos. Foto: tirada em campo durante a pesquisa.

Outros lugares chegaram a instalar portões metálicos para bloquear a passagem, e alguns contratam pessoas para fazer a segurança patrimonial e de acesso. Analisar essas reações remetem a reflexões sobre os medos gerados pela presença massiva de pessoas nas ruas — talvez pela memória e idéia de outras ocasiões com grandes eventos e manifestações. Ficando, assim, evidente que, apesar de 5 anos de programa, essa nova convivência nos espaços públicos de forma constante e para usos diversos está ainda em construção, e que algumas fachadas ainda atuam para a expulsão e negação ao invés de contribuir para uma esfera de convite e integração.

Próximos passos

As informações e reflexões ajudam a compreender a complexidade do espaço e das novas dinâmicas urbanas de forma profunda e não definitiva, assim como, levantaram ainda mais questionamentos. O laboratório irá continuar explorando outras camadas de análise nos próximos meses para ir somando a esse entendimento de como a abertura de uma avenida tão frequentada e simbólica impacta nos usos e relações naquele espaço, nas pessoas e na cidade.

Sobre o Paulista Aberta Lab

O Paulista Aberta Lab é um laboratório urbano dedicado a estudar e entender as dinâmicas urbanas provocadas pelo acontecimento da Paulista Aberta. Criado pelo SampaPé!, e com diversos parceiros temáticos o laboratório pretende aprofundar e qualificar as análises e observações das interações urbanas a partir dos usos e ressignificações dos espaços públicos.

Sobre o SampaPé!

O SampaPé! é uma organização sem fins lucrativos (ONG) fundada em 2012 que tem como objetivo construir cidades mais caminháveis com as pessoas. Trabalha nas frentes de promoção da cultura do caminhar e humanização as cidades. Para isso, realiza projetos e metodologias para engajar e capacitar cidadãos e decisores da cidade. Também promove ações político-cidadãs, de comunicação, mapeamento, urbanismo tático, legibilidade, entre outras. Foram os idealizadores e mobilizadores da Paulista Aberta, promovem passeios a pé e processos participativos.

www.sampape.org | www.facebook.com/sampape.sp | www.instagram.com/sampapesp

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ONG que tem como fim melhorar a experiência de caminhar nas cidades.

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